Melhorar a Comunicação

Como melhorar a comunicação utilizando todos os sentidos

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A comunicação entre pessoas muitas vezes não é fácil. Todos os dias encontramos situações extremamente desafiadoras, seja quando tentamos captar a mensagem de uma pessoa indignada por telefone, ou quando é a nossa vez de negociar pelo WhatsApp um orçamento mais amigável para a revisão do carro.

Felizmente, tive uma experiência muito positiva ontem justamente ao deixar o meu carro na oficina para a revisão dos 10 mil quilômetros. E a questão nem é a conversa sobre o orçamento, a qual foi simples e tranquila, mas muito mais a iniciativa do gerente da concessionária de inovar em relação à comunicação com o cliente, no que dizem respeito às explicações dadas para ilustrar os consertos necessários:

Na garagem, encostado em uma das paredes, tinha um painel de aproximadamente dois metros quadrados, onde estavam penduradas várias peças de carro.

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Para eu entender melhor o que tinha de ser consertado no veículo, a funcionária me mostrou as peças no painel e deu explicações adicionais. Eu podia tocar nas peças, das quais uma nova e uma gasta estavam expostas, por exemplo, para ver a diferença entre um fluído hidráulico perfeito e o usado que precisaria ser trocado. No caso do filtro de ar-condicionado, a moça me mostrou até a peça do meu próprio carro, arrancando-a de trás do porta-luvas. Não tinha mais o que discutir: o filtro estava tão sujo e preto, que fiquei até assustado, pois não esperava por isso. Nestes momentos, não dá para negar que moramos em São Paulo, onde a poluição continua sendo um fator preocupante. Resumindo:

Foi a primeira vez na minha vida que eu tinha a sensação de ter entendido razoavelmente bem o que seria feito com meu carro.

É por esse motivo que eu quero refletir mais a respeito da situação. Por que será que eu gostei da experiência? Por que essa forma de comunicação aparentemente funciona?

Recentemente, li um livro do Prof. Dr. Michael Madeja sobre o nosso cérebro: Das kleine Buch vom Gehirn” (significa O pequeno livro do cérebro, em Alemão).

Dr Prof Michael Madeja

Ele explica que as pontas dos nossos dedos têm, além dos lábios, a maior quantidade de células nervosas, que enviam um número muito grande de informações para o nosso cérebro em pouco tempo. Se nós compararmos os dedos com as costas, a diferença é gigante. Você até pode fazer o teste agora:

  • Coloque as pontas de dois lápis com um milímetro de distância na ponta de um dos seus dedos. O seu cérebro vai perceber as pontas dos lápis como duas sensações separadas.
  • Coloque agora as pontas dos dois lápis com pelo menos 10 milímetros de distância entre uma e a outra nas suas costas. Você vai notar que mesmo aumentando a distância entre os pontos, o nosso cérebro interpreta a sensação como uma única só.

Voltando ao exemplo da revisão do carro: quando vemos um objeto em três dimensões, neste caso, um filtro de ar-condicionado ou uma pastilha, e ao mesmo tempo, adicionamos o tato e até o cheiro (pois o filtro usado tem um cheiro diferente do novo), entendemos o assunto mais facilmente e também lembraremos das informações com mais detalhes depois.

Fazendo o link com a sala de aula, fica óbvio o que um bom professor precisa fazer: oferecer momentos de aprendizagem onde os alunos possam entender melhor um assunto absorvendo a informação com todos os sentidos. Poder tocar num objeto para ter um entendimento mais completo é fundamental para reter informações de forma mais duradoura. Além disso, ter uma experiência sensorial diversificada é imprescindível para o aluno se interessar mais por temas complexos. Os bons professores já estão colocando esse conceito em prática e, consequentemente, os alunos e estudantes vão mais felizes e motivados para a escola ou faculdade.

Como suíço que mora no Brasil há 12 anos, não consigo neste contexto deixar de mencionar o pedagogo suíço mais influente até hoje, Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), que propôs essa filosofia já há mais de dois séculos, pregando o ensino com a cabeça, o coração e as mãos (mit Kopf, Herz und Hand).

Johann_Heinrich_Pestalozzi

Ou seja, além das mãos, é preciso utilizar o intelecto e o emocional para aprender de forma integral. Por isso, aprender um instrumento, modelar uma estátua de argila ou montar uma mesa de futebol de botão na marcenaria são vivências tão valiosas para o desenvolvimento de todos nós que deveriam fazer parte do cotidiano escolar e universitário, como também do dia a dia de todos adultos. Infelizmente, vemos hoje ainda um predomínio absurdo para o intelecto. Um equilíbrio entre as três partes seria muito mais saudável.

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Andreas Panse é suíço e mora no Brasil desde 2005. Formado em Pedagogia pela Universidade de Zurique, atua como consultor pedagógico na Escola Suíço-Brasileira. Leia mais…
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