motivação escola

Como aumentar a motivação na escola? Crie uma semana de oficinas!

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Alguns dias atrás eu tive o privilégio de participar da Semana de Oficinas dos alunos do 6° ao 9° Ano da escola onde trabalho. Fui tanto observador como também aprendiz ativo. A programação, que tem como objetivo principal a integração dos alunos do Ensino Fundamental 2, ofereceu as seguintes opções:

  • Cinema brasileiro em debate;
  • Show de talentos;
  • Atelier des quiches et crêpes (em Francês);
  • Sobrevivencialismo;
  • Tacos;
  • Pontes de macarrão;
  • Programação de games;
  • Pulseira da amizade;
  • Confecção de hand spinner;
  • Jassen – Jogo de baralho suíço (em Alemão).

Como um dos únicos suíços no mundo que não aprendeu ainda o jogo de baralho mais importante do seu próprio país, pensei: “Aproveite essa oportunidade única e aprenda finalmente o Jassen, a versão alpina mais importante dos jogos de cartas!”

aumentar a motivação na escola
As cartas do baralho suíço são diferentes, mas dá para jogar também com as cartas usadas no Brasil.

O que eu vivenciei durante uma manhã inteira, aprendendo junto com alunos de 11 a 15 anos, foi tão marcante que vale a pena compartilhar a experiência. Não só em relação às minhas observações subjetivas, mas também quanto aos resultados concretos que foram alcançados em um total de 225 minutos, divididos em 5 aulas com intervalos. E, além disso, para enfatizar que existem, sim, várias formas de aumentar a motivação na escola. Que contraste com aquela imagem de uma sala de aula com o professor fazendo um sermão de 45 minutos na frente de alunos enfileirados e entediados trocando mensagens pelo WhatsApp!

Quais os fatores então que fazem da Semana de Oficinas um ótimo estudo para identificar os pontos que promovem a motivação dos alunos em sala de aula? E quais os motivos que tornam o aprendizado de um jogo de baralho numa experiência extremamente valiosa?

Observei um nível muito alto de:

(1) Atividade por parte do aluno (aluno protagonista e não consumidor)

A atividade dos alunos estava muito alta durante toda manhã. Nenhum aluno ficou desinteressado. Muitas vezes, nós podemos observar uma atividade muito alta por parte do professor, enquanto o aluno fica numa posição passiva, o que não é positivo para o seu aprendizado. O engajamento e dedicação foi nitidamente visível. E um aumento significativo quanto à responsabilidade pela construção do próprio conhecimento.

(2) Alegria, motivação e vibração

Era contagiante ver tantos adolescentes sorrindo, competindo de forma saudável e … aprendendo! Muitas vezes, temos a falsa impressão que você só aprende num ambiente austero e que é impossível juntar alegria com estudo sério.

(3) Interação, colaboração e ajuda mútua

Os alunos trabalhavam em grupos mistos: um aluno do 7° Ano trabalhando com um aluno do 9° Ano. Um do 6° Ano junto com um do 8° Ano. A formação das cadeiras e mesas era diferente: em vez de fileiras tinha 6 mesas com 4 cadeiras cada, com um total de 24 alunos em sala de aula. Bem parecido então com o ensino colaborativo que oferece muito mais interação entre alunos – eles aprendem com os outros. Às vezes um aluno não entendia as explicações da professora. Neste caso, o colega explicou para ele logo em seguida mais uma vez.

motivação escola ensino colaborativo
Disposição das mesas para o ensino colaborativo.

A interação fortalece as competências socioemocionais, por exemplo, jogando em dupla contra outra dupla de forma cooperativa e competitiva. Um aluno comentou: “Jassen com parceiro é mais legal do que jogar sozinho!”

aumentar a motivação 003-min

Em segundo lugar, seguem abaixo os 5 resultados concretos que foram alcançados:

(1) Aprimoramento das habilidades linguísticas

Os alunos aprenderam muitas palavras-chave, por exemplo, stechen (ganhar uma rodada com a carta mais forte, em Português) ou Gegenuhrzeigersinn (sentido anti-horário). A diferença importante com o ensino mais comum é que o aluno aprende a palavra na prática. Aquela palavra é muito importante para ele no momento da atividade. Como ele tem um interesse real em compreendê-la, a chance de aprendê-la é muito maior desta forma.

Eles treinaram também as quatro competências linguísticas principais:

  • Fizeram compreensão de escrita porque todo material era em Alemão;
  • Fizeram compreensão oral porque as instruções das professoras foram dadas em Alemão;
  • Fizeram produção oral e compreensão oral: vários alunos tiraram dúvidas com a professora em Alemão de forma voluntária e também a professora às vezes deu algumas informações individuais para os alunos durante as fases de experiência.

Podemos falar aqui de um exemplo prático de imersão: o foco é o conteúdo, e não o ensino técnico da língua.

(2) Aprendizado sobre a cultura do país (neste caso, a Suíça)

Eles aprenderam sobre a cultura suíça. Isso é importante, pois não se ensina uma língua sem contexto cultural. O conteúdo é relevante – não é a língua alemã que está no centro.

(3) Aprendizado de um jogo alternativo ao atual mundo virtual

Todos nós sabemos que ficou cada vez mais difícil de oferecer atividades fora do mundo digital.

 (4) Aprendizado completo combinando intelecto e habilidades motoras

Todas as habilidades precisam ser treinadas. Por isso, é importante os alunos trabalharem com as mãos: um embaralha, o outro corta o baralho e devolve para o aluno que distribui as cartas, o que parece fácil, mas não é! Depois, eles precisam estruturar as cartas em mãos, fazendo categorias com os naipes: vermelho, preto, vermelho, preto – com os números crescendo da esquerda para a direita. Tudo isso prepara para uma boa estratégia e tomada de decisão que ajudam na hora de escolher entre os três tipos de jogos:

  • trunfo;
  • “de cima para baixo” (obenabe, em Alemão suíço);
  • “de baixo para cima” (unenufe).

Um aluno está na frente de um dilema: “Qual a melhor decisão?”; “Quem se organiza melhor tem mais chances de ganhar!”, diz a professora. Pois tem uma visão melhor da situação do que aquele que tem todo o jogo bagunçado. Interessante neste aspecto é o seguinte: quatro alunos de um certo grupo apresentaram quatro soluções diferentes na primeira tentativa de organização. A professora direcionou da seguinte forma: a versão “Naipe Vermelho – Naipe Preto – Naipe Vermelho – Naipe Preto” é a melhor. Além disso, os alunos precisam aprender como distribuir e segurar as cartas para ninguém ver dentro do jogo.

(5) Fortalecimento das capacidades de:

  • Análise, estruturação das informações e lógica

Qual carta vence as outras três cartas? Depois, precisa somar os pontos. Aplicar as regras é algo que funciona com naturalidade com bastante treino, o que neste jogo um pouco mais complexo é o caso.

  • Desenvolvimento de estratégias

Precisa desenvolver uma estratégia inteligente para vencer com as cartas em mãos.

  • Tomada de decisão

Durante o jogo precisa raciocinar: é melhor jogar a carta X agora ou depois?

  • Cálculo mental

Os três tipos de jogo têm sistema de pontuação diferente. É difícil calcular na cabeça e somar os pontos: a carta 6 vale 0 ou 11 pontos, dependendo do jogo. E ela pode ser a melhor ou a pior carta para vencer uma outra carta. O total precisa dar sempre 157 pontos. Se aluno A fez 33 pontos e aluno B 29, quer dizer que o aluno C tem que ter 95 pontos.

O que acontece ainda muitas vezes no dia a dia escolar é o professor dando o seguinte aviso: “Hoje nós trabalhos com o cálculo mental! Vamos fazer alguns exercícios.” Mas, qual o conteúdo? Neste caso, a aula vira algo maçante. No caso do baralho, tudo ficou leve. Os alunos nem perceberam que estavam aprimorando as habilidades em cálculo mental.

  • Memorização

Se você consegue lembrar das cartas que já foram jogadas, tem uma vantagem competitiva.

Além das observações e resultados, vale a pena também destacar três dicas didáticas relevantes para a prática:

  • Quando a professora queria passar um conteúdo novo, ela acionava um sino para chamar a atenção dos alunos. Simultaneamente, levantava a mão e em seguida todos os alunos também levantaram a mão, até o último ficar em silêncio. O método funciona!
  • De forma alternada, existiam etapas curtas de instrução e experiência, o que ajudou para uma boa ritmização.
  • Quando a professora disponibilizou um tapetinho verde com os quatro naipes, um aluno comentou: “Nossa, profissionalismo!” Os alunos percebem quando o professor faz algo a mais e não entrega só o mínimo, como nesse caso a confecção do tapetinho especial (veja foto abaixo).

aumentar a motivação na escola

Como mencionado no início do post, além do Jassen, foram oferecidas outras oficinas, entre eles a confecção de um hand spinner. Nesse workshop, os alunos trabalharam de forma interdisciplinar: primeiro, desenvolveram um desenho com a professora de geometria e depois foram para a marcenaria onde cada um dos alunos fabricou o seu próprio hand spinner. As imagens em seguida mostram tanto o processo como também o resultado final da oficina:

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É fundamental lembrar neste contexto que é imprescindível como professor se colocar de vez em quando na posição do aluno. No meu caso, no início da oficina, olhei para o meu jogo de baralho e não consegui fazer uma análise rápida do que deveria fazer. E no final de cada jogada precisava inverter as cartas e deixá-las separadas e “invisíveis” ao lado. Isso era muito difícil para mim, pois tinha dificuldade para lembrar desse detalhe.

Além disso, me perguntava frequentemente: Qual estratégia deveria adotar? Neste momento, você se sente um leigo, mas você sente exatamente o que o seu aluno sente quando ele está na sua sala de aula, o que é benéfico porque tira você daquela posição do superior que sabe tudo, comparado com o aluno que não sabe nada. Fazendo uma comparação: um psicólogo também deveria de vez em quando fazer terapia. Um bom coach também deveria ser coachee de vez em quando. E nós conhecemos inúmeras outras profissões que se beneficiariam dessa conduta também.

Por fim, é importante lembrar que a Semana de Oficinas, que é uma boa opção para o período entre provas de recuperação e último dia letivo do semestre, não é a única maneira de promover a motivação na escola. Mas ela mostra que precisamos pensar cada vez mais em alternativas para a aula tradicional que coloca o professor como palestrante no centro da aprendizagem, em vez de priorizar o aluno como protagonista ativo e construtor do seu próprio conhecimento.

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Andreas Panse é suíço e mora no Brasil desde 2005. Formado em Pedagogia pela Universidade de Zurique, atua como consultor pedagógico na Escola Suíço-Brasileira. Leia mais…
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