Surpreenda seus alunos com aulas que preparem para o mundo real

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Muito se fala hoje sobre o papel do professor do século XXI: ele deve ser cada vez mais um facilitador do aprendizado e menos um palestrante na frente da lousa. Em contrapartida, os alunos devem ser mais protagonistas, mais ativos e engajados em sala de aula. São eles que produzem e colocam a mão na massa e vale lembrar que tudo isso tem que acontecer num ambiente no qual o aluno se sinta motivado e dê sentido nas atividades promovidas. No atual cenário, o conhecimento está cada vez mais à disposição de todos nós. Desta forma, para que o futuro profissional se destaque, o mercado de trabalho exige que as escolas ensinem e valorizem as habilidades socioemocionais, principalmente por meio da interação pessoal.

Mas como promover essas habilidades no dia a dia escolar?

Neste post, quero trazer um exemplo da minha prática em sala de aula que deu certo.

Vou relatar em 7 passos como os alunos do Ensino Médio, que se preparam para o Diploma Internacional IB (International Baccalaureate), aprenderam dois tópicos importantes para a prova final de Alemão, por meio de uma atividade que prepara para o mundo real.

Os tópicos:

  1. Conhecer melhor o gênero textual “Entrevista”
  2. Aprofundar-se no tema “Diversidade Cultural”, que está ligado às questões da imigração, integração e assimilação de estrangeiros na Alemanha

A situação:

Ao invés de apenas transmitir os pontos mais importantes para a realização de uma entrevista ou pedir que os alunos lessem um texto sobre discriminação, convidei-os a atuar! Propus que fizessem entrevistas reais com pessoas que já vivenciaram alguma situação relacionada ao tema “Imigração”.

Desta forma, a aula ficou mais interessante e dinâmica e os alunos desenvolveram suas competências socioemocionais.

PASSO 1: Leitura de uma entrevista

Primeiro, os alunos leram uma entrevista de uma jovem de pais turcos nascida na Alemanha, que viveu durante 20 anos naquele país e depois fez faculdade na Turquia. Após essa experiência, voltou novamente à Alemanha.

Na entrevista, ela relata os desafios de uma vida entre duas culturas totalmente diferentes e faz uma reflexão a respeito de temas como:

  • Discriminação

  • Não ser 100% aceita nem na Alemanha nem na Turquia

  • Reflexão sobre a necessidade ou não de assimilar totalmente a cultura de um país

International Baccalaureate - Deutsch im Einsatz
Livro didático do International Baccalaureate (IB): “Deutsch im Einsatz” – Capítulo “Diversidade Cultural”

PASSO 2: Checklist de uma entrevista

Como segundo passo, os alunos receberam uma lista com os pontos mais importantes a serem observados para se escrever uma entrevista interessante, por exemplo:

  • Escrever uma pequena introdução

  • Utilizar a língua falada, sem esquecer de dar importância para a ortografia correta

  • Conectar as respostas às perguntas de forma clara

  • Incluir um agradecimento do entrevistador ao final

PASSO 3: Simulação de uma entrevista por meio do ensino colaborativo

Como havia 4 alunos em situação semelhante à da turca em minha sala de aula, ou seja, com pais que imigraram para o Brasil – e, portanto, que também vivem entre duas culturas diferentes – formamos 8 grupos de 4 alunos para preparar uma entrevista real, autêntica: 7 grupos prepararam perguntas para os 4 alunos com origem migratória.

trabalho em grupo - ensino colaborativo
O ensino colaborativo promove as habilidades socioemocionais.

Os 4 alunos com pais imigrantes não prepararam perguntas, mas trocaram ideias entre eles a fim de estruturar melhor os próprios pensamentos. Desta forma os alunos colocaram em prática o chamado ensino colaborativo, que promove a interação social, que é a base para as desejadas habilidades socioemocionais.

A entrevista entre os alunos serviu como preparação para duas entrevistas com professores da escola com origem migratória: um da Suíça e o outro, da Alemanha.

Lago de Brienz, na Suíça
Lago de Brienz, cidade de Bönigen (Suíça).
PASSO 4: Reflexão sobre a vivência

Após o simulado com os colegas, os alunos fizeram uma reflexão sobre a vivência (também em grupos):

  • O que deu certo na entrevista? O que não deu certo?
  • Por que algumas perguntas são mais adequadas que outras?

  • Por que na maioria das vezes é melhor fazer perguntas abertas?

PASSO 5: Realização de entrevistas com pessoas reais

Como próximo passo, os alunos se prepararam, novamente em grupos, para a entrevista com os dois professores. Elaboraram 10 perguntas e depois fizeram uma síntese das melhores. As perguntas corrigidas foram projetadas com o datashow para todos.

Agora era hora de os professores chegarem para as entrevistas de 15 minutos. Os alunos se revezaram para fazer as perguntas e gravaram toda a entrevista com o smartphone deles (na verdade, 3 gravaram e repassaram a gravação aos outros, pelo WhatsApp).

smartphone para transcrição da entrevista

No final da aula fizemos uma reflexão a respeito não só do conteúdo das 2 entrevistas, mas também quanto à experiência do gênero de texto, levando em conta o checklist da entrevista.

Seguem 4 exemplos de perguntas que os alunos fizeram aos professores estrangeiros:

  1. O que você pensava sobre o Brasil antes de vir para cá? Como essa visão mudou depois das suas primeiras experiências?

  2. Existem pontos na cultura brasileira que te chamaram atenção ao chegar ao Brasil e que agora, depois de um tempo, ainda acha marcantes?

  3. Você teve dificuldades de encontrar amigos aqui no Brasil?

  4. Você já passou por um mal-entendido num lugar público por causa da língua?

Os dois entrevistados foram selecionados propositalmente por terem vivenciado experiências diferentes:

  • Um é recém-chegado. Só está no Brasil há dois meses.

  • O outro está no Brasil há cinco anos.

As respostas eram muito interessantes porque descreveram situações reais. Os alunos estavam muito motivados e um que é normalmente mais reservado fez várias perguntas em público. Ele criou coragem de falar, o que mostra que cada um é capaz de superar as suas dificuldades. Na reflexão, os alunos se deram conta que o tempo de estadia no país de cada professor resultou em falas bastante diferentes.

PASSO 6: Transcrição das entrevistas

Na etapa final, os alunos tiveram tempo para fazer a transcrição da entrevista, o que é um desafio muito grande, pois a língua falada às vezes não é tão fácil de entender comparado com um texto perfeitamente escrito.

Mas o ponto mais importante é que essa atividade era real. Era uma situação autêntica que envolvia indivíduos que têm algo a compartilhar. A vivência criou um interesse real nas histórias e percepções de vida dos entrevistados, muito diferente de qualquer texto que retirado de um livro didático. Muitas vezes, o aluno não tem conexão nenhuma com aquele conteúdo. Por isso, os professores precisam se perguntar sempre:

O conteúdo que eu vou passar é relevante para o aluno? Se não for, como eu posso adequá-lo para tornar o aprendizado mais significativo?”

Se os alunos estão motivados, eles vão querer aprender, pois têm um interesse real no conteúdo. Além disso, eles aprendem na prática o que é importante para uma entrevista. Se eles só têm um checklist, bem provavelmente aprenderão muito pouco. Mas se eles podem experimentá-la numa entrevista real, a chance de aprendizado é muito maior.

Agora, para terminar o processo e torná-lo ainda mais interessante, só falta este último passo:

PASSO 7: Publicar as entrevistas na revista da Escola!

Assim toda a escola pode tirar proveito desta experiência!

***

Andreas Panse é suíço e mora no Brasil desde 2005. Formado em Pedagogia pela Universidade de Zurique, atua como consultor pedagógico na Escola Suíço-Brasileira. Leia mais…

 

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2 comentários em “Surpreenda seus alunos com aulas que preparem para o mundo real”

  1. Excelente Andreas, quantas aulas levou todo processo? Interessate é transcescrever a entrevista, da linguagem falada para a escrita. Os alunos trabalham ativos e nao passivos. Parabéns e obrigada pela idéia.

    1. Obrigado pelo feedback, Neusa! Foram 6 aulas de 45 minutos para os passos 1-6. O trabalho quanto à publicação na revista escolar depende muito do número de alunos que você quer envolver nessa etapa.

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