Já ouviu falar do Modelo das Nações Unidas? – Uma simulação que coloca o aluno no centro

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“Nossa, esse evento foi o máximo! Consegui aplicar todo o conhecimento adquirido em um único lugar!” – O que mais você quer ouvir de seus alunos do Ensino Médio durante uma atividade que durou três dias inteiros? O evento em questão é o Modelo das Nações Unidas (Model United Nations – MUN), que simula o trabalho realizado na ONU, organização internacional mais importante do mundo: reuniões na Assembleia Geral, debates no Conselho de Segurança e lobbying antes do encontro das delegações no World Health Organization (WHO), entre outros.

Modelo das Nações Unidas - Model United Nations

O modelo é aplicado com muito sucesso no mundo inteiro e tem como objetivo fazer com que seus participantes – alunos do Ensino Médio e universitários – aprendam a lidar com conflitos e negociações diplomáticas, obrigando-os a treinar e desenvolver a oratória e a trabalhar em grupo. Algumas edições do Modelo das Nações Unidas são grandes, outros mais simples. Elas duram, em média, cinco dias e todas as atividades são em inglês.

O mais importante é que todos os alunos que participam se mantêm extremamente ativos. Uma boa parte da responsabilidade pelo sucesso do evento recai sobre eles. Nesta simulação eles aprendem a vida como ela é, com tudo interligado, bem diferente do dia a dia escolar padrão onde as matérias são apresentadas de forma fragmentada e, por vezes, desconexas. Além disso, na escola os professores estão muitas vezes no centro do processo de aprendizagem, o que tem como consequência uma postura bastante passiva por parte dos alunos.

Esses dias acompanhei a segunda edição do SMUN 2017 – (Swiss) Model United Nations no Colégio Suíço-Brasileiro de Curitiba (Paraná), que reuniu alunos de escolas de cinco estados do Brasil (Bahia, Brasília, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo). O evento contou com aproximadamente 100 alunos que representaram 16 países em 5 comitês (Conselho de Segurança – SC, Conselho Econômico e Social – ECOSOC, Organização Mundial da Saúde – WHO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura – FAO, Corporação Financeira Internacional – IFC).

Abaixo, os países que foram representados:

Alemanha, Algéria, Brasil, China, Coréia do Norte, Coréia do Sul, Estados Unidos, Índia, Irã, Japão, Malásia, Nigéria, Paquistão, Reino Unido, Rússia, Venezuela

Modelo das Nações Unidas - Model United Nations
Uma das salas de aula que foi utilizada para um dos 5 comitês

Quero compartilhar as competências mais importantes desenvolvidas pelos alunos que participaram do Modelo das Nações Unidas – SMUN 2017:

Responsabilidade

O aluno que assume o papel de secretário-geral é responsável pela organização no geral (juntamente com um representante da escola) e pelo bom andamento do evento. Pelo peso de sua responsabilidade, podemos comparar sua atuação à de um CEO de uma empresa. É ele, por exemplo, quem realiza a abertura do Modelo das Nações Unidas tendo assim, a chance de treinar e desenvolver sua oratória diante de um grande público. O aluno sente na própria pele o significado de ser o (co)responsável por todo um evento.

Quem simulou o papel de presidente ou co-presidente administrou as reuniões dos comitês. Se não souber liderar, os debates não fluirão bem. Eles batem o martelo para anunciar decisões importantes, avisam os chefes das delegações que são chamados para outros comitês e instruem onde novos documentos podem ser encontrados. Eles são também responsáveis por fazer a chamada.

Modelo das Nações Unidas - Model United Nations
Identificação dos comitês, na porta das salas de aula (neste caso, o Conselho de Segurança)

Os Alunos do 8° e 9° ano, embora ainda não tenham idade suficiente para participar do Modelo das Nações Unidas como representantes dos países, ajudam no andamento do evento: direcionam os participantes às salas corretas e levam memorandos de um comitê ao outro. Eles têm a oportunidade de conhecer a dinâmica das atividades e ficam extremamente motivados ao ver o que os alunos do Ensino Médio já são capazes.

Respeito às normas

Durante os três dias, os participantes tiveram que seguir as regras do simulado. Um aluno, por exemplo, teve que tirar o chapéu que vestia, pois não estava respeitando o código de vestimenta (dress code) do evento. Outros alunos foram alertados quando se comunicaram em português, já que a regra era clara: a única língua permitida era o inglês. Também não podiam usar pronomes como “eu” ou “você” nas argumentações, já que estavam ali para representar uma nação inteira e não seus interesses pessoais. Exemplo, ao invés de dizer: “Eu tenho a intenção de …”, o representante da delegação japonesa deveria usar: “A delegação do Japão tem a intenção de …”

Comunicação

Cada aluno precisou escrever um discurso de abertura (em inglês) que foi apresentado no comitê. Os chefes de delegações apresentaram um discurso que representou o país no início do evento – na assembleia geral – em frente à um grande público. Puderam assim, treinar e desenvolver suas habilidades de oratória.

Negociação e Estratégia

Principalmente nos momentos entre os debates estruturados, os chefes das delegações do Modelo das Nações Unidas fizeram lobbying (lobismo) de suas ideias. Eles precisaram encontrar parceiros para poder aprovar novas diretrizes. Até a pausa para o cafezinho serviu para procurar aliados.

Autoconhecimento

Um aluno comentou no segundo dia:

Ontem fiquei bastante tímido, mas hoje já me soltei um pouco, pois percebi que o meu inglês é suficiente para contra-argumentar e até colocar pontos de vista mais ousados.”

Uma aluna se desesperou em um momento, alegando que não estava à altura do nível das argumentações dos demais participantes. Após ser orientada pelo grupo que a acompanhava, se sentiu mais segura e aprendeu a lidar com situações difíceis. Um bom exemplo prático para ganhar resiliência e tolerância à frustração.

Um aluno que participou pela segunda vez comentou:

Este ano, tenho mais confiança, estou mais corajoso. Me preparei melhor para o assunto, o que ajuda a ter mais autoconfiança. Estou preparado para os debates e negociações.”

Um aluno descobriu que gostava de estratégia:

Achei interessante perceber que durante o debate, você pode mudar de posição, dependendo das decisões apresentadas pelos outros países. Gosto de elaborar diretrizes que mudam os acontecimentos.”

Pesquisa

Antes e durante o MUN (Model United Nations), os alunos precisaram pesquisar tudo sobre o funcionamento do comitê, da ligação com toda estrutura da ONU, a posição do país, dos aliados e inimigos, tudo em Inglês. Os alunos que não estavam bem preparados perceberam durante o evento que não conseguiram rebater bons argumentos dos chefes das delegações e que ficaram rapidamente isolados por falta de confiança por parte dos possíveis aliados.

Flexibilidade, Criatividade e Resolução de Problemas

Durante o evento do Modelo das Nações Unidas, foram simuladas crises que demandaram dos alunos uma resposta rápida à nova situação que foi apresentada. Eles tiveram que filtrar e priorizar as novas informações para poder tomar melhores decisões. As crises deixaram a simulação muito dinâmica e os alunos gostaram dessa movimentação. As crises foram elaboradas pelo Comitê de Desenvolvimento de Crises. Eles formularam os textos em conjunto, colaborando de forma profissional para um objetivo em comum.

Os chefes das delegações foram pressionados por acontecimentos (breaking news), o que demandava muita concentração, pois os países questionavam posições, como no caso dos EUA, que lançou uma bomba de teste no Oceano Pacífico, o que foi interpretado por membros como uma ameaça à paz mundial.

O simulado do funcionamento das Nações Unidas integra muitas atividades promovidas pelas escolas, o que requer a percepção dos alunos de que nós estamos inseridos num contexto complexo e interligado, onde cada um contribui com as suas habilidades. Muitos detalhes contribuíram para o evento ser percebido como uma aproximação excelente do mundo real, por exemplo:

  • Os alunos precisaram respeitar o Dress Code (código de vestimenta)
  • Todos os alunos receberam um crachá com nome, função, comitê e país

Modelo das Nações Unidas - Model United Nations

  • Faculdades com cursos de Relações Internacionais (com foco em Ciências Políticas, Economia, Direito e História) apresentaram seus programas e a perspectiva de prospectar alunos nesta área (diplomacia, ONU, ONGs, etc.)
  • Os responsáveis pelos comitês utilizaram um martelo para conduzir os debates
  • Alguns alunos promoveram as atividades da imprensa, ajudando na divulgação de notícias

No final do segundo dia, o representante de uma delegação comentou com um colega:

Colocaram uma bomba de hidrogênio no Havaí!”

Um dos professores, que não estava participando do evento, escutou a conversa e ficou imediatamente preocupado: “Como assim? Colocaram uma bomba no Havaí? Quem?” A resposta, para o alívio do professor, foi a seguinte: “Calma! Pode ficar tranquilo. É só uma simulação…”

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Andreas Panse é suíço e mora no Brasil desde 2005. Formado em Pedagogia pela Universidade de Zurique, atua como consultor pedagógico na Escola Suíço-Brasileira. Leia mais…

 

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