5 modelos de educação que você talvez não tenha considerado ainda

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Existem alguns livros que nos marcam e nos transformam para sempre. No meu caso, um desses livros foi o “A dimensão educacional da sala de aula” (título original em Alemão: Die erzieherische Dimension des Unterrichts), do autor Prof. Dr. phil. Hermann Siegenthaler, que foi um de meus professores de Ciências Educacionais na Faculdade de Zurique, na Suíça. Hermann Siegenthaler é uma dessas pessoas que nos inspiram.

Ainda hoje, 18 anos após a primeira leitura deste excelente livro, acesso mentalmente seu conteúdo, não só como consultor pedagógico e professor, mas também como pai de um menino de 10 anos. Recentemente, li mais uma vez e fiquei impressionado em como os modelos de educação abordados no livro continuam atuais.

O ponto mais importante do livro de “Sigi”, forma carinhosa como chamávamos o professor, é que nenhum modelo de educação é capaz de solucionar todos os desafios da complexa realidade que se apresenta para nós, sejamos educadores ou pais. É preciso conhecer profundamente os 5 modelos de educação que apresentarei logo abaixo, para saber em que momento utilizá-los, lembrando sempre que todos são igualmente válidos, dependendo do momento.

Cabe ao professor avaliar qual o modelo de educação mais indicado para um determinado propósito.

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Por isso, quem escolher a pedagogia montessoriana, construtivista, antroposófica, tradicional ou qualquer outra filosofia, porque acredita que com esse único modelo de educação tudo vai dar certo, restringe demais as possibilidades que a educação como um todo oferece.

Conforme demonstrarei na descrição dos 5 modelos, a educação montessoriana, em algumas situações, é excelente. A construtivista também. Bem como a antroposófica, e assim por diante. Mas não em todas as situações. Se fosse assim, seria muito fácil educar. Basta aplicar um modelo de educação e pronto: criamos um ser humano perfeito.

Tenho certeza que após a leitura dos 5 modelos, você entenderá muito bem porque é importante alternar constantemente entre os distintos conceitos educacionais:

(1) Educação pelo EXEMPLO

A educação acontece o tempo todo. Não podemos impedir que ela aconteça. Também não podemos forçar a educação, pois a escolha pela imitação do comportamento de alguém é, em princípio, livre.

Faça uma reflexão a respeito dos seguintes exemplos que passamos para nossos alunos/filhos:

  • Um professor tem um aluno com dificuldades. Pense nas possibilidades de atuação: o professor o larga sozinho num canto, o ridiculariza na frente dos outros? Ou ele o ajuda com paciência, tentando descobrir o melhor caminho para apoiá-lo?
  • O professor ensina com paixão? Ele gosta do que faz? Ou mostra indiferença e sai frequentemente da sala de aula antes de tocar o sinal, porque não vê a hora daquilo acabar?
  • No domingo, durante o almoço em família, o pai interrompe o tempo todo a fala da esposa, do tio e da prima e usa muitos palavrões.
  • Um outro pai raramente lê o jornal ou um livro, mas exige do filho que melhore o Português dele.

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As crianças e adolescentes observam tudo e avaliam o tempo todo se querem adotar um comportamento ou não. Para isso acontecer, os adultos não precisam falar absolutamente nada.

É inegável o fato que um ambiente seguro, respeitoso, onde não há medo, aumenta em muito a probabilidade de um jovem integrar um comportamento, pensamento ou atitude positiva em seu repertório e isso sem que os pais precisem “ensiná-lo” ou dar um sermão.

(2) Educação pela INSTRUÇÃO

Esse é o modelo de educação mais familiar para todos nós. É o que mais aparece de forma consciente no dia a dia atual. O professor (ou pai) explica, fala, lidera, propõe, intervêm, determina, controla, limita, direciona, autoriza, forma, seleciona, planeja, conduz, responsabiliza. Poderíamos estender a lista de verbos quase infinitamente.

Muitas pessoas acham que educação é só isso. Você vai entender essa perspectiva rapidamente imaginando as seguintes situações:

  • Um aluno pergunta: “O que significa human being em Português?” – O professor de inglês responde: “Ser humano.”
  • Ao ler um texto, uma aluna pronuncia a palavra “procrastinação” de forma errada. Um colega de classe começa a rir dela e o professor reage: “Por favor, pare de rir. Estamos todos aqui para aprender. Ninguém precisa ter receio de cometer um erro na minha sala de aula.”
  • Durante uma festa, o filho de 12 anos pergunta ao pai: “Posso beber um copo de cerveja?” O pai responde: “Você pode beber álcool quando fizer 18 anos.”
  • Sua filha de 4 anos corta um papel conforme as linhas indicadas. Você como mãe percebe que ela não está utilizando a tesoura da forma correta. Portanto, você tira a tesoura da mão dela, inverte os lados com buracos de tamanhos diferentes e explica para ela que desta forma dá para cortar melhor.

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Em várias situações, essa forma de educar é necessária e positiva. Só que não em TODOS os momentos. A educação seria muito mais fácil se bastasse cuidar dos jovens somente pela instrução e imposição de limites. Como regra básica vale o seguinte: fazer intervenções construtivas, que não botem medo e nem proporcionem uma ideia de superioridade.

(3) Educação pela OBSERVAÇÃO

Esse é o modelo de educação mais difícil de entender. Ele já criou muita confusão, pois já foi interpretado de forma completamente errada em vários momentos da história. Por isso vale a pena começar com a explicação sobre tudo que esse modelo NÃO representa:

  • O adulto não faz nada, apenas fica olhando;
  • a professora se libera de toda a responsabilidade;
  • o pai larga a criança sozinha.

O professor ou o pai que fizer isso comete um grande erro. Dito isto, o que então caracteriza o ato educacional conforme este modelo?

O professor observa a atividade do aluno com atenção e foco total. Ele confia na capacidade da criança de explorar o mundo de forma independente. Ele acredita que a criança já traz uma bagagem, um potencial dentro de si. Em outras palavras: o aluno não é um barril vazio que precisa ser preenchido. Portanto ele deixa crescer, florir, brotar com paciência o que já tem dentro do jovem. Ele só ajuda o aluno que realmente não consegue após várias tentativas resolver o problema sozinho. Com isso ele dá para o aluno mais responsabilidade pelo próprio aprendizado, o que leva a mais autonomia.

Para ilustrar melhor o conceito do modelo de educação, seguem alguns exemplos do dia a dia:

  • A mãe observa a filha de 15 meses tentando fazer uma torre com pedaços de madeira. Ela não intervém, pois acredita que a filha talvez consiga sozinha, se tentar durante um bom tempo. Esta mãe prefere dar espaço para tentativas do que segurar o braço da filha e mostrar desde o início da atividade como se faz.

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  • Um professor deixa os alunos trabalharem em grupos de quatro. Durante essa atividade ele observa que um grupo tem mais dificuldade de ter ideias. Em vez de chegar já com cinco ideias prontas, ele deixa os alunos refletirem um pouco mais para chegarem sozinhos em novas ideias.
  • Antes do início da aula, uma professora já deixa o ambiente da sala de aula pronto com todo material necessário para o aprendizado – por exemplo livros para as crianças explorarem esse mundo de forma mais independente. O que leva à autonomia e ao crescimento dentro desse espaço delimitado. Os alunos escolhem tarefas conforme as prioridades de cada um. Procuram soluções individuais definindo suas prioridades. O professor se pergunta: em qual momento durante a aula posso criar um espaço para os alunos trabalharem de forma mais independente?

(4) Educação pela CULTURA

Esse modelo de educação é fácil de entender quando refletimos a respeito do aprendizado de um instrumento. Imaginemos que um menino de 10 anos inicie a tocar trompete:

  • Ele escolhe esse instrumento porque gosta do som que ouviu na apresentação da banda da cidade em uma festa. Ele inclusive gostou do uniforme que o trompetista vestiu naquele dia.

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  • Ele conhece a história do instrumento, onde foi fabricado, vários compositores e gêneros musicais.
  • Aprende como cuidar do instrumento, qual produto precisa aplicar para limpar e conservar, e como colocá-lo de volta na capa. Ele começa a desenvolver o respeito necessário por um objeto valioso.
  • Ele participa de uma apresentação para os pais na escola, recebe o primeiro aplauso, após o qual se curva na frente do público para agradecer.
  • Participa de um concerto que o professor é dirigente, se orgulha dele e se identifica com ele.
  • Ele faz parte das reuniões da escola de Música, como voluntário, o que agrega qualidade de vida.

Todas essas etapas mostram que esse menino cresce dentro de uma parte da cultura, a música, ao longo dos anos. Desta forma, ele abre o horizonte para o bem cultural “Música”, o que vale para o resto da vida dele.

Uma escola precisa ter consciência clara em relação à cultura que pretende passar:

  • Existe um espaço para os alunos debaterem as regras comportamentais e regras para as pausas? Ideias inovadoras para o dia a dia escolar são levadas em conta?
  • Nas aulas de Educação Física existe, além da competição, também um senso para a colaboração?
  • Quando os alunos debatem um tema polêmico, cada um ouve os argumentos do outro ou todos falam ao mesmo tempo?
  • A aula começa pontualmente?
  • O lixo é jogado no lixo?

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Todas essas perguntas mostram que a cultura na qual passamos a maior parte do tempo influencia em muito a nossa identidade e a postura que assumimos perante a vida.

(5) Educação pela INTERAÇÃO

O professor aprende com o aluno e o aluno aprende com o professor. Portanto, educação é um encontro entre duas pessoas. São momentos de felicidade, tristeza, medo e raiva entre as partes envolvidas. E no final, os dois saem da situação de forma diferente: eles aprenderam alguma coisa, ficaram mais maduros, um ajudou o outro. São esses momentos que são essenciais para um professor. Portanto, ele deveria refletir mais a respeito deles e anotá-los num papel, após um dia de trabalho. Isso vai ajudá-lo a perceber que vale a pena colocar energia na profissão.

As seguintes situações exemplificam esse modelo de educação:

  • O momento em que o aluno entende finalmente um assunto, quando cai a ficha, após várias tentativas.

  • Um aperto de mãos, junto a uma troca de olhares significativa, no final de uma aula.
  • O bate-papo informal, num intervalo, sobre um assunto que não tem a ver com a escola.
  • Uma palavra de motivação que faltava para o aluno reiniciar a atividade proposta.

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Um outro exemplo é o relato de um estagiário que dava aulas como substituto para alunos de 16 anos. Um adolescente deu muito trabalho, atrapalhando as aulas com comentários fora de hora. Mas no final do estágio, justamente esse aluno o procurou, estendeu a mão e falou: “Você fez um ótimo trabalho com a gente! ” Essa situação deu muita energia para o estagiário e ele se convenceu que poderia dar conta do recado como futuro professor.

Muitas vezes, são detalhes que podem iniciar uma boa relação entre professor e aluno, mas para captar esses detalhes, o professor precisa ficar atento, antenado o tempo todo, senão ele vai perder chances preciosas.

CONCLUSÃO: O segredo está na combinação dos 5 modelos de educação!

Para finalizar, vale a pena lembrar que o entendimento desses modelos é importante principalmente por causa da reflexão que os educadores precisam realizar o tempo todo. Escolher o modelo de educação certo para cada situação é muito difícil, mas o treino constante para acertar a ação pedagógica mais adequada aumentará muito a qualidade de suas decisões e de suas aulas.  Para os professores, significa mais profissionalismo e uma contribuição para a formação continuada. E para os pais, uma ajuda para entender melhor o desenvolvimento saudável de seus filhos.

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Andreas Panse é suíço e mora no Brasil desde 2005. Formado em Pedagogia pela Universidade de Zurique, atua como consultor pedagógico na Escola Suíço-Brasileira. Leia mais…

 

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