Projeto Âncora

5 razões para conhecer o Projeto Âncora

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Esses dias visitei a escola Projeto Âncora em Cotia na Grande São Paulo. O tour pelo espaço físico começou às 9h da manhã e durou uma hora. Logo no início, me impressionei pelo fato de que os “guias” que fizeram a apresentação da escola, Duda e Kaio, tinham apenas 9 e 12 anos! Eles mostraram para um grupo de 12 adultos de diferentes estados do Brasil, os pontos mais importantes do projeto. Além disso, responderam com desenvoltura à praticamente todas as nossas perguntas. No final da visita, após uma conversa com coordenadores, professores e alunos, tive a convicção de que o alto grau de autonomia e responsabilidade dos dois jovens não era coincidência e sim fruto do trabalho diário desenvolvido no Projeto Âncora.

O que acontece então nessa escola que torna possível que duas crianças liderem uma dúzia de adultos interessados em saber mais sobre a proposta pedagógica? Para responder a essa pergunta, vou compartilhar as 5 razões mais importantes que consegui identificar nas três horas de visita à escola, mas antes disso, seguem algumas informações gerais sobre o Projeto Âncora, que está localizado em uma chácara perto da Rodovia Raposo Tavares, no município de Cotia, na Grande São Paulo:

O Projeto Âncora é uma das escolas mais inovadoras do mundo: sem aula, sem divisão por série, ano, turma ou idade, e a maioria dos educandos estuda em tempo integral, das 7h20 às 16h00.

A escola foi fundada e construída em 1995 pela arquiteta Regina Steurer, junto com o marido Walter Steurer (que faleceu em 2011). Ela contou com o apoio do renomado Professor José Pacheco – um dos fundadores da Escola da Ponte, em Portugal – para a idealização do projeto, que atende 170 crianças de 3 a 16 anos de famílias de baixa renda (até três salários mínimos) e em situação de vulnerabilidade social.

José Pacheco - Projeto Âncora
José Pacheco, da Escola da Ponte, ajudou com seu conhecimento pedagógico

Agora vamos às 5 razões pelas quais você deve conhecer este projeto:

(1) Os diferentes graus de autonomia de seus alunos

Os alunos estão divididos por nível de autonomia e não por faixa etária.

Todos os 170 educandos estão divididos, não por faixa etária, mas por nível de autonomia, em três núcleos de aprendizagem:

  1. Iniciação (grau básico de autonomia)
  2. Desenvolvimento (grau médio de autonomia)
  3. Aprofundamento (grau alto de autonomia)

Quando uma criança entra na escola, ela vai primeiro para o núcleo de Iniciação, independente da idade que tiver. O critério de transição entre os núcleos é o nível de autonomia conquistado no processo. Portanto, um menino de 9 anos pode estar no mesmo grupo de um de 12 anos se seu grau de maturidade para realizar certa tarefa for equivalente ao do restante da turma.

Os educandos fazem constantemente uma autoavaliação. Se a criança percebe que não está conseguindo lidar com a liberdade que o núcleo em que está oferece, por exemplo, o “Desenvolvimento”, ela volta para o núcleo “Iniciação”. Como ela percebe isso? Quando ela não consegue entregar os projetos no tempo previsto.

Cada criança faz o planejamento do dia, seja de forma mais autônoma ou com auxílio, de acordo com o núcleo em que está. É um processo de amadurecimento. O objetivo é a criança chegar mais cedo ou mais tarde ao núcleo “Aprofundamento”, o que significa que ela já tem bastante autonomia e está pronta para ajudar os outros.

(2) O roteiro individual de aprendizagem

Os alunos planejam seu próprio roteiro de estudo, que pode ter a duração de um dia ou meses.

Os educandos planejam o seu próprio roteiro todos os dias de manhã, no caderno, com pontos fixos como lanche e almoço e objetivos individuais que eles escolhem para si mesmos. Exemplo: “Quero entender como se formou o planeta Terra.”

É montado um roteiro com as atividades que levarão a concretizar um projeto menor ou até um sonho maior. O educando formula perguntas, faz protocolos de pesquisa e relata a bibliografia. Depois, o professor tutor ajuda individualmente, para que ele possa ser aprimorado. No final, ele aprova a proposta e acompanha no dia a dia o progresso de cada um. Como o educando não pode só estudar línguas, por exemplo, o tutor questiona planejamentos que não são abrangentes o suficiente.

Um roteiro pode ter a duração de um dia, de uma, duas ou três semanas ou até mais. É anotado tudo que é preciso aprender, de acordo com o interesse de cada um. Cada roteiro tem várias etapas e a cada etapa o tutor dá um visto se o aluno cumpriu o combinado.

Os educandos compartilham os roteiros regularmente e, às vezes, percebem neste momento que outros educandos estão interessados no mesmo assunto. Neste caso, podem formar um grupo de estudo.

Projeto Âncora - Roteiro de Aprendizagem
Compartilhamento dos temas no núcleo “Iniciação” (grau básico de autonomia)

O roteiro exige uma excelente organização do tempo de estudo e dos espaços. O planejamento é essencial para a criança ter segurança e clareza do que vai fazer durante o dia. Para o aluno administrar seu tempo, ele precisa se conhecer muito bem. Cada educando estuda no seu ritmo. Ninguém aprende no mesmo tempo que o outro.

Como os sonhos são individuais, o jeito de aprender de cada um é individual e a construção do conhecimento também. Há crianças de 11 ou 12 anos que trabalham com conteúdos do Ensino Médio. Da mesma forma, há também educandos de 14 anos trabalhando assuntos do 5° Ano.

Ao longo do processo são marcados os objetivos dos parâmetros curriculares nacionais (PCNs) já alcançados, independente da ordem. Essa é a grande diferença de uma escola tradicional em que o objetivo é oferecido e o grupo de alunos, pelo fato de ter a mesma idade, deve buscar atingir o objetivo. No Projeto Âncora, um aluno que está pronto para entrar no Ensino Médio, além de ter o conteúdo obrigatório, aprendeu a aprender.

Não há provas agendadas. Porém, no final do roteiro, quando o educando é capaz de mostrar um conhecimento ou uma competência, ele pede ao tutor para ser avaliado.

(3) O papel do professor

O professor não planeja PARA o aluno, planeja COM o aluno.

Cada professor do Projeto Âncora é tutor, ou seja, ele é o principal responsável por aproximadamente 12 educandos. Além disso, ele também é tutor de todos os 170 alunos, porque está disponível para todos os educandos em qualquer momento.

O tutor avalia se o educando sabe ensinar o outro, o que é fundamental para a criança poder mudar de núcleo de autonomia. Os educadores entendem que quando uma criança ajuda a outra, ela aprende também.

Ele é articulador, perguntador, facilitador, mediador, organizador de projetos de responsabilidade e especialista. Exemplo: se um educando tiver dificuldade de compreensão com uma questão matemática, ele é encaminhado ao especialista da área, neste caso, o professor de matemática.

O tutor tem um olhar para o indivíduo, sua potencialidade, sua necessidade e sua bagagem de aprendizagem. Quando a criança apresenta um desejo ou um sonho, ele pergunta: Por que você quer aprender mais sobre esse assunto? O que você já sabe sobre o tema? Com quem você quer trabalhar junto? Quais recursos você precisa? Qual é seu objetivo principal? Qual o significado disso para você? Portanto, é uma busca pelo significado da aprendizagem.

O que torna esta modelo possível? O fato do professor não dar aula, pelo menos não nos moldes tradicionais e não estar preso à sala de aula.

(4) Os espaços de aprendizagem

A escola não possui salas de aula.

Como não tem salas de aula tradicionais, é importante entender em quais espaços os educandos estudam. No Projeto Âncora existem, entre outras, as seguintes áreas de estudo:

  • Sala de Estudo (sala de silêncio)
  • Laboratório
  • Biblioteca
  • Circo
  • Ateliê de Artes
  • Estúdio de Música
  • Hortas
Horta do Projeto Âncora
Uma das duas hortas do Projeto Âncora, que representa um dos espaços de aprendizagem
  • Sala de Vídeo
  • Quadra Coberta
  • Ateliê de Dança
  • Ateliê de Cerâmica

Um tabuleiro de xadrez está em cima da mesa, numa sala de estudo, pronto para ser usado a qualquer hora. Lembra bastante a pedagogia montessoriana, que preza pelo ambiente que é criado pelos educadores para promover um local agradável que estimula o aprendizado.

Além disso, os educandos se beneficiam de pequenos laptops com plataforma digital de aprendizagem para organizar seus trabalhos.

(5) A assembleia que promove o diálogo

O projeto é baseado nas relações e o conteúdo não é o mais importante. Aprender a se relacionar, escutar uma opinião diferente, saber lidar com ela e agir afetivamente mesmo quando é contrariado, é tão importante quanto aprender a fazer uma redação com clareza, coesão e pontuação.

Todos os 170 alunos se reúnem na sexta-feira à tarde, para debater vários assuntos que surgiram durante a semana (por exemplo, um celular que sumiu, um caso de bullying ou a forma como querem organizar a próxima festa). Eles se juntam no circo colorido no centro do Projeto Âncora, que é a praça onde os eventos da comunidade ocorrem (igual à ágora que antigamente foi o lugar de encontro entre os antigos gregos).

Isso deixa claro que o projeto é baseado nas relações e que o conteúdo não é o mais importante. Aprender a se relacionar, escutar uma opinião diferente, saber lidar com ela e agir afetivamente mesmo quando é contrariado, é tão importante quanto aprender a fazer uma redação com clareza, coesão e pontuação. São as tais competências sócio-emocionais que todos os educadores querem implementar, mas muitas vezes não sabem exatamente como.

Os educadores entendem o espaço como coletivo. Colocar a cadeira no lugar após o uso e levantar a mão para pedir permissão para falar fazem parte do dia a dia. Além disso, o Projeto Âncora valoriza muito os encontros, as assembleias e as rodas de reflexão porque promovem as decisões coletivas.

Para quem quiser conhecer o Projeto Âncora pessoalmente segue aqui o link para fazer a inscrição na lista dos visitantes:

INSCRIÇÃO VISITA PROJETO ÂNCORA

Gostaria de ressaltar que não tenho nenhuma participação neste projeto. Tampouco estou sugerindo que todas as escolas tenham que seguir o modelo adotado no Projeto Âncora ou que este modelo seja melhor que os outros. O que pretendo com este post é simplesmente estimular a reflexão da nossa prática como professor e oferecer visões alternativas que possam, eventualmente, enriquecer nossas aulas.

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Andreas Panse é suíço e mora no Brasil desde 2005. Formado em Pedagogia pela Universidade de Zurique, atua como consultor pedagógico na Escola Suíço-Brasileira. Leia mais…
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