pirâmide de aprendizagem

O mito da pirâmide de aprendizagem

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Quem trabalha com educação bem provavelmente já ouviu falar da pirâmide de aprendizagem (em inglês: The Learning Pyramid). Ela sugere que quando aprendemos algo novo, lembramos do conteúdo mais facilmente se aprendermos de forma ativa, por exemplo, promovendo um debate, fazendo algo na prática ou ensinando o conteúdo estudado a outros. Por outro lado, esquecemos rapidamente o conteúdo absorvido quando aprendemos de forma passiva, por exemplo, por meio da leitura, assistindo à uma palestra ou ouvindo uma história.

Que a aprendizagem ativa é melhor que a passiva, eu não quero discutir aqui, já que até intuitivamente sabemos que deve ser assim mesmo. Porém, o que eu quero questionar é o embasamento científico dessa pirâmide de aprendizagem. Pois tudo indica que a pirâmide é um mito científico! E nós ajudamos a construí-lo durante as últimas décadas. Fato é que até hoje, ela foi compartilhada inúmeras vezes pelos diversos canais de comunicação.

Daniel Willingham e Kåre Letrud – duas tentativas de desmistificação

Várias pessoas já tentaram inibir a disseminação desfreada desse mito, entre eles:

  • Daniel Willingham – psicólogo da Virginia University, com seu blogpost (¹) que em 2013 foi publicado no jornal americano Washington Post: em poucas frases ele explica que não faz sentido você tentar definir uma média de retenção de memória para atividades que envolvem tantas variáveis (tipo de material audiovisual analisado, idade das pessoas, instruções que os probandos receberam ao ensinar algo). Ele chega à conclusão que não seria possível fazer um estudo científico de algo tão complexo. Mas o National Training Laboratories (NTL) Institute na cidade de Bethel, no estado de Maine (EUA), continua afirmando que o estudo da pirâmide de aprendizagem se baseia numa pesquisa séria dos anos 60 (que segundo o instituto, não pode ser comprovado, porque ninguém mais acha as provas originais).
  • Kåre Letrud – filósofo da Innland Norway University (²): o norueguês até escreveu para o NTL Institute nos EUA, mas recebeu somente uma resposta padrão, que diz:

Nós acreditamos que o modelo da pirâmide seja correto. Porém, nós não temos mais a pesquisa original que sustenta os números. E também não conseguimos achá-la.”

A conclusão dele é a mesma que a de Daniel Willingham: seria difícil demais para fazer um estudo científico a fim de provar a pirâmide de aprendizagem. Portanto, ela nunca foi comprovada com nenhum outro estudo em anos posteriores, até hoje. Aliás, outros dois nomes que aparecem frequentemente como “fontes” são Edgar Dale ou William Glasser.

pirâmide de aprendizagem
Uma pesquisa rápida na internet traz inúmeros resultados para visualizar versões adaptadas da pirâmide de aprendizagem
Refletindo sobre o processo de aprendizado

Fazendo uma pequena reflexão quanto à minha própria experiência com processos de aprendizado, posso acrescentar os seguintes quatro pontos:

  1. É importante ressaltar que somente uma boa combinação de várias atividades da pirâmide de aprendizagem pode garantir um bom aprendizado. A leitura não pode ser simplesmente descartada por ela não configurar como método eficaz de aprendizado. No contrário: a leitura é fundamental para adquirir o conhecimento necessário para depois poder participar de um debate. Ela é importantíssima também para contribuir para uma discussão interessante ou para ensinar uma outra pessoa sobre um certo assunto.
  2. Quando você lê um texto, depende muito do seu conhecimento prévio se você é capaz de reter muito ou pouco do texto. Alguém que já leu vários livros sobre buracos negros com certeza vai reter muito mais do que 10% de um artigo que lê no jornal sobre o mesmo assunto.
    pirâmide de aprendizagem
    Quanto você sabe sobre buracos negros?

    Um defensor do estudo poderia dizer: “Mas eles estão falando da média quanto à retenção!” Pode até ser, mas neste caso fica a pergunta: qual a utilidade dessa informação da pesquisa, já que hoje em dia se fala tanto da individualização do ensino e que nós precisamos enxergar cada estudante como ser humano único?

  3. Um ótimo professor ou palestrante pode sim fazer a diferença: enquanto alguns não conseguem despertar o interesse da plateia, outros fazem discursos memoráveis dia após dia e aumentam desta forma a taxa de retenção dos seus ouvintes drasticamente. Com a diferença que hoje, o bom professor sabe que o seu discurso não precisa mais durar 45 minutos. Na maioria das vezes, 5 minutos bem colocados são suficientes para despertar o interesse.
  4. Quanto à aprendizagem ativa, quero destacar duas metodologias que funcionam muito bem na prática:
    • Debate entre 4 alunos, 2 a favor de um tema e 2 contra. Recentemente, os meus alunos debateram (em Alemão) a respeito da seguinte questão: “Os pais devem controlar as atividades online de seus filhos até que idade?” No final de cada debate, o público precisa dar um feedback individual para cada debatente, seguindo uma lista de critérios pré-estabelecidos.
    • Ensino colaborativo, com três fases: primeiro, um momento individual que cada aluno faz uma reflexão a respeito de um assunto (em silêncio total, o que é muito importante!); depois um momento de troca de informações e experiências em pequenos grupos, para consolidar as diferentes perspectivas; e por final, uma rápida apresentação para ouvir a síntese de cada grupo.

Para finalizar, só mais uma coisa: não é coincidência que em pouco tempo esse já seja meu segundo texto sobre a questão do pensamento crítico, habilidade fundamental na época atual dos Fake News. Precisamos estar atentos para verificar as informações que nos são apresentadas. Para quem quiser se aprofundar no meu post sobre a importância do pensamento crítico, segue aqui o link: Como promover o pensamento crítico (com 5 macacos e uma banana).

(¹) LINK blogpost Daniel Willingham 

(²) LINK artigo Kåre Letrud

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Andreas Panse é suíço e mora no Brasil desde 2005. Formado em Pedagogia pela Universidade de Zurique, atua como consultor pedagógico na Escola Suíço-Brasileira. Leia mais…
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6 comentários em “O mito da pirâmide de aprendizagem”

  1. Andreas, parabéns pelo texto sobre Pirâmide de Aprendizagem e sobre a boa combinação de várias atividades da pirâmide. Embora não tenha vivência sobre este assunto, para mim, a proporção de aprendizagem das atividades está bastante lógica. Mesmo quando se considera, por exemplo, um expert em Buraco Negro, de forma individual e única, é de se supor que, percentualmente, seu aprendizado será bem maior quando ele ensina outro comparativamente a uma palestra ou leitura.

  2. Andreas, gostei muito de suas opiniões. Mas tenho algumas indagações, primeiramente sobre o buraco negro, quando a pessoa teve seu primeiro contato à esse conhecimento para reter a informação é o que irá impactar adiante, ou seja, eu acredito que o que mantém como a lenda do aprendizado em nós seria o quanto aquela informação foi impactada no momento em que tivemos o nosso contato com ela. Seja ela apresentada apenas por falas, textos, imagens, … o formato em que ela for apresentada combinando com o jeito em que nos identificarmos à ela que irá propiciar num aprendizado significativo. A tal pirâmide deve ter sido desenvolvida em seu formato genérico onde não foi aplicando formatos impactantes a nenhum dos modos… E acredito que as imagens estão acima da leitura e da audição pois ela em si, independente do teor de impacto aplicado, ela naturalmente já impacta. E qd mudamos o aspecto passivo ao ativo, a concretização de conceitos abstratos tomam vida e acredito que se essa transição forem feitas encharcadas de imagens e esquemas elas se tornam muito mais duradouras.

  3. Ao tentar interpretar a pirâmide, é possível pensar que o “aprender ensinando” pode ter mais êxito porque, quando você precisa ensinar algo a alguém, é necessário estudar bastante, o que pressupõe a utilização de variados recursos para, antes de ensinar, aprender. Esses recursos serão aqueles aos quais se adaptam ao estilo de aprendizagem de cada pessoa. Portanto, acho validável a teoria, quando se coloca na base da pirâmide, o “aprender ensinando”.
    Contudo, a aprendizagem advinda do processo de “aprender ensinando” pode ser potencializada quando quem ensina não se limita apenas a repassar informações. É potencializada quando esse ensino está inserido em práticas contextuais que permitem aos estudantes e professor ir além, construindo assim novos conhecimentos em conjunto.

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