aulas inovadoras

Veja como é fácil criar aulas inovadoras

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Desenvolver aulas inovadoras que despertem o interesse dos adolescentes de hoje não é uma tarefa fácil. Os jovens da atualidade possuem muitos fatores de distração e é muito comum flagrá-los de olho na tela do smartphone. Portanto, antes de iniciar uma sequência de aulas, é fundamental refletir a respeito dos objetivos e como alcançá-los da melhor forma possível. Uma estratégia que tem dado resultados excelentes recentemente na minha prática diária é convidar profissionais internos e externos para a sala de aula. Junto com eles, fica muito mais fácil possibilitar um aprendizado que sai da rotina dos livros didáticos e propiciar um momento de conexão mais real com o mundo “lá fora”. Aqui no Professor Inovador, quero compartilhar uma experiência recente, com dois profissionais da área de Artes.

Dois profissionais da área de Artes: Sven Egert e Isabela Saraiva

O primeiro profissional que convidei se chama Sven Egert. O artista, recém-chegado no Brasil, foca na arte abstrata e tem ganhado vários prêmios importantes no seu país de origem, a Suíça.

Sven Egert Aulas Inovadoras
Abstração, Sobreposição, Experimento; esses três termos representam a intenção do trabalho artístico de Sven Egert (*1980 em Chur). O artista suíço, que nasceu no cantão dos Grisões (Graubünden), dedica-se há anos à pintura livre, usando diferentes técnicas e materiais.

O segundo profissional que convidei foi a professora de artes Isabela Saraiva, que trabalha na mesma instituição onde leciono.

Isabela Saraiva Aulas Inovadoras
Isabela Saraiva, mestra em Artes pela Unicamp, desenvolve pesquisa no campo das Artes em: fotografia, teatro e educação. Atua como professora de Artes há 18 anos.

Só para entender o contexto: os dois profissionais foram convidados para minhas aulas de Teoria do Conhecimento, todas ministradas em Inglês e seguindo o modelo das aulas de imersão. TOK (Theory of Knowledge) é uma matéria obrigatória do Bacharelado International (IB), que promove principalmente o pensamento crítico e a reflexão a respeito do próprio aprendizado. A Arte representa uma das oito áreas de conhecimento que são abordadas no curso ao lado de Ética, História, Matemática, Ciências Naturais, Ciências Humanas, Conhecimento Indígeno e Conhecimento Religioso. Dentro da área de Artes, um dos objetivos principais é entender que um crítico pode avaliar obras de arte por várias perspectivas diferentes, por exemplo a intenção do artista, a estética, a emoção provocada no público e se a obra representa o momento atual da sociedade. Dependendo da perspectiva, é possível avaliar uma obra como boa ou ruim, fato que diariamente provoca tantas discussões entre os críticos.

Eu entendo alguma coisa de Artes, mas não sou especialista. Sendo assim, achei melhor consultar estes dois profissionais da área para as minhas aulas. Eles me auxiliaram não só na execução, mas também no preparo da aula. E o resultado final mostrou que valeu a pena, pois o feedback dos alunos e o envolvimento deles durante as atividades foi tão positivo que não deixou dúvidas em relação à eficácia dessa estratégia.

Quero destacar algumas reflexões a respeito dessas duas experiências. O artista Sven Egert trouxe três obras de arte dele para a sala de aula. Sua participação possibilitou os seguintes aprendizados:

  • Os alunos se prepararam para a visita dele, pesquisando seu website: svenegert.ch. Viram as fotografias das obras de arte, leram sua biografia e conheceram suas principais conquistas. É diferente você pesquisar informações a respeito de alguém que você vai conhecer pessoalmente. A motivação é outra, pois a situação é real.
Sven Egert Website Aulas Inovadoras
Homepage do artista: svenegert.ch
  • Durante a visita, os alunos promoveram uma reflexão aprofundada a respeito das obras, ouvindo explicações do artista e fazendo perguntas. Um aluno perguntou: “Você acha certo que alguns artistas consigam vender obras que possuem, por exemplo,  apenas um quadrado por 10 milhões de dólares?” Sven Egert respondeu que para chegar nesse ponto, o artista precisa ter produzido muitas obras que receberam o devido reconhecimento antes. Só assim, ele conseguirá vender no futuro uma obra “mais simples” como uma caixa de fósforo com a assinatura dele, por exemplo. Um outro aluno comentou: “Depois da conversa com Sven, vimos algo nas obras que não conseguiríamos ver sozinho! Que bom que tivemos acesso direto aos pensamentos do próprio artista!”
  • Os alunos fizeram também um exercício mental: tiveram que escolher a obra que mais gostaram e justificar os motivos da escolha, fazendo uma conexão com a ferramenta teórica de avaliação crítica que aprenderam em sala de aula. São esses momentos que os professores precisam criar: a conexão da teoria com a prática. Uma aluna acrescentou ainda um quinto critério à ferramenta do livro didático: a originalidade. Foi muito legal ver que os alunos, quando se envolvem de fato com um assunto, são capazes de não somente repetir a teoria, mas de acrescentar algo a ela!
  • Como as obras eram recentes e não tinham nome ainda, puderam dar sugestões de títulos para o artista. Os alunos perceberam logo que não existe uma única perspectiva para avaliar obras de arte. Eles entenderam que não é possível classificar facilmente entre certo e errado ou bonito e feio. E que trazer bons argumentos para sustentar os seus comentários é uma tarefa desafiadora. Sven Egert acrescentou que a arte abstrata exige um treino mais frequente para o público começar a gostar.
  • Durante a atividade, os alunos tiveram a oportunidade de observar as três obras de arte de perto. Esse momento é importante, pois é diferente poder apreciar uma obra ao lado de seu criador, ainda mais quando este está ali para esclarecer dúvidas. Envolver os cinco sentidos é crucial para um aprendizado mais duradouro. Foi interessante também perceber que os alunos comentaram as obras de forma intensa neste momento mais informal. O ser humano quer compartilhar a sua visão: “Eu vejo aqui um lobo!” disse um – “Não, imagina, é um cavalo!” – “Olha aqui, parece uma faca!” – “É, e você também consegue enxergar Darth Vader ali”. – “Qual obra você gosta mais? Eu a da esquerda.” – “Ah não, eu prefiro a do meio!”
  • Na última parte da aula, os alunos tiveram ainda a possibilidade de falar individualmente com o artista. Abrir essa possibilidade é muito importante porque há certas perguntas que nós não queremos fazer na frente de todo mundo. Além disso, sempre existem alguns alunos que são mais tímidos e preferem se manifestar em situações mais reservadas.
  • Todos se beneficiam da atividade: não só os alunos, mas também o professor e o convidado, que recebeu um feedback imediato dos alunos, quanto às suas obras de arte.
  • Como a atividade coincidiu com a SP-Arte, Festival Internacional de Arte de São Paulo, que ocorreu no pavilhão da Bienal (de 11 a 15 de abril de 2018), aproveitamos para divulgar o evento e incentivamos os alunos a visitar a exposição no final de semana. Todos foram? Provavelmente não, mas se um aluno foi, já valeu a pena. O mesmo vale para a atividade em geral: o objetivo nunca pode ser que todos gostem da experiência da mesma forma. Mas se alguns levam um aprendizado individual para a vida pessoal ou profissional, o objetivo já foi alcançado.
SP-Arte Aulas Inovadoras
SP-Arte, Bienal São Paulo (11 a 15/04/2018)

Atividade que integra música, arte e teoria do conhecimento

A professora de Artes Isabela Saraiva promoveu uma atividade muito enriquecedora quanto à integração da música no processo de criação de arte. Ela pensou em uma estratégia que facilitasse a compreensão do movimento artístico Expressionismo Abstrato, que possui obras que geralmente causam polêmica ao serem exibidos em sala de aula. Ela apresentou os quadros de alguns representantes desses movimentos como Jackson Pollock e Arshile Gorky. Os alunos observaram as telas e depois a professora fez uma proposta para que eles vivenciassem um processo criativo similar ao desse movimento.

A aula teve três partes principais:

  1. Escutar  –  Durante os primeiros 15 minutos, os alunos escutaram partes de uma dúzia de músicas de estilos diferentes, deitados no chão, com os olhos fechados e em total silêncio.
  2. Pintar  –  Em seguida, eles pintaram coletivamente 18 quadros com tinta guache, tentando colocar as emoções vividas durante a escuta das músicas no papel. A cada 30 segundos aproximadamente, tiveram que passar a pintura iniciada para o vizinho ao lado direito. Desta forma, todos os quadros foram elaborados por vários alunos diferentes.
  3. Refletir  –  Nos últimos 10 minutos, foi feita uma reflexão a respeito da vivência, enfatizando o impacto das músicas no processo de criação das pinturas e o desafio de lidar com a dificuldade de criar uma obra de arte em conjunto, sem ter tempo para refletir a respeito da escolha feita na hora de pintar.

Aulas Inovadoras TOK & Artes

A atividade foi muito intensa. Muito importante era que os alunos puderam compartilhar as suas percepções quanto às músicas e a integração delas na arte. Ficou mais uma vez evidente que a reflexão em conjunto é fundamental para qualquer pessoa. Nas aulas de teoria do conhecimento, esse aprendizado é essencial. Os alunos perceberam também que as músicas despertaram as memórias mais diversas, instantaneamente.

Aulas Inovadoras TOK & Arte

Do ponto de vista pedagógico, vale a pena destacar dois fatos:

  1. Os alunos percebem com essas vivências que as informações das diversas áreas estão interconectadas.
  2. Os alunos presenciam professores que se comunicam entre eles e que preparam algo em conjunto. Os educadores devem ser modelos e o que fazem é muito mais importante do que falam.

Alguns podem dizer: “Mas isso dá muito trabalho!” É verdade. Dá mais trabalho preparar uma aula assim. Por outro lado, agrega muito valor para a sua vida profissional e pessoal. Vale a pena investir esse tempo adicional. Inegável é que dar a mesma aula durante 30 anos não é desafiador e motivador para ninguém.

E você? Já convidou algum profissional para sua aula? Ou deu aulas inovadoras com outra estratégia? Compartilhe suas experiências aqui no Professor Inovador!

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Andreas Panse é suíço e mora no Brasil desde 2005. Formado em Pedagogia pela Universidade de Zurique, atua como consultor pedagógico na Escola Suíço-Brasileira. Leia mais…
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